segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SAMIZDAT 32

SAMIZDAT 32


Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
Em Nome do Filho, Edelson Nagues

HUMOR
Breve Dissertação sobre o Palavrão, Joaquim Bispo

CONTOS
O Moedor de Café, Henry Alfred Bugalho
Criança Prodígio, Thiago Jefferson dos Santos Galdino
Filho da Pátria Sem Mãe, Marcelo Soriano
Vez em quando, Cinthia Kriemler
Relicário, Tatiana Alves
A deusa da chuva, José Guilherme Vereza
O Catavento Maluco, Otávio Martins
Depuração, Silvana Michele Ramos
Adivinho, detetive ou fofoqueiro, Roberto Klotz
Avessa (o), Sara Meynard
Coletivo, Edweine Loureiro
Purgatório, Zulmar Lopes
Doa-se um helicóptero. Tratar aqui, Leandro Luiz
Rugas do Tempo, Juliano Ramos de Oliveira
Minha vida, meu pesadelo, Sonia Regina Rocha Rodrigues
Marta e o gosto do tempo, Fernanda Cristina de Paula

TRADUÇÃO
A Galinha Degolada, Horacio Quiroga
Decálogo do perfeito contista, Horacio Quiroga

TEORIA LITERÁRIA
O que ninguém lhe dirá numa oficina literária - parte 1 (A Criação), Henry Alfred Bugalho
Castillo e Modern: dois poetas argentinos, Elias Antunes
O Grande Sertão de Riobaldo, Alessa Bertazzo

CRÔNICA
Europa Descarrilada, João Paulo Hergesel

POESIA
A fila, Volmar Camargo Junior
#18, Rafael Zen
Rito, Anna Apolinário
Olhos de distância, Daniel Moreira
Sagrado, Luiza Oliveira
Senilidade, Valmir Luis Saldanha
Nº 1, Douglas Batalha
Missão, Mariana Valle

Links para a SAMIZDAT 32

Scribd - http://www.scribd.com/doc/82903691/SAMIZDAT-32
Calaméo - http://www.calameo.com/books/000002238490b64673d2f
Recanto das Letras - http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/3522358

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cantai a vida que a morte é muda


Cantai a alegria do Sol e a ternura da Lua e, quando nem o Sol nem a Lua se mostram, cantai as nuvens pesadas que nos fazem companhia.

Cantai as folhas do Outono e as flores da Primavera, cantai o riso da alegria e as lágrimas do desgosto; cantai o andar pesado do vagabundo e o gesto solto da bailarina, cantai o picar da vespa e o voo da andorinha.

Cantai a água fresca da nascente no Verão, cantai o fumo da lareira do Inverno, cantai a bebedeira da borboleta e a disciplina da formiga; cantai a inocência do animal que corre e os montes que ao longe se quedam, cantai o ontem que morreu e o amanhã que nascerá.

Cantai o peixe que nada e o pássaro que voa, cantai o vento que sopra e a chuva que molha, cantai o dia que nasce e a noite que cai. Cantai o mundo todo por inteiro, cantai aquilo que é e aquilo que não é; cantai o sonho e o pesadelo que podiam ter sido e não foram ou que podiam não ter sido e foram.

Cantai os que se aproximam e os que se afastam, cantai quem compreendem e quem não percebem, cantai quem ajuda em horas de necessidade e quem foge ao sacrifício, cantai os que vêem e os que são cegos, cantai tudo o que à vossa porta passe. Ou que não passe.

Cantai, que eu não tenho voz.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quotidiano Fantástico

A Carta Anónima

Joaquim Bispo




Uma destas manhãs, ao levantar-se, Henry deparou com a seguinte mensagem, junto à porta, escrita com palavras recortadas de jornais e coladas num pedaço de papel:

/ anjinhos / milhões / visitaram / chefe / bicicleta / fatias /

Incompreensível como parecia, não lhe atribuiu grande importância. De qualquer modo, ligou para Denise, mas ela não tinha visto nada suspeito, quando saíra. Teria sido, com certeza, composta por algum grupo de miúdos desocupados tentando divertir-se à custa dum vizinho. Espreitou pela janela do quarto a ver se descortinava os malandrinhos alapados por detrás de algum arbusto. Ninguém. Atravessou o corredor e olhou pela janela da sala. A rua estava deserta, ou antes, com os esporádicos transeuntes habituais. Nem sombra dos catraios.

Enquanto preparava o pequeno-almoço, atentou melhor naquele conjunto de palavras alinhadas no papel. Seria algo para levar a sério? Hum! Parecia tão desconexo, sobretudo a parte final!
De repente, um sobressalto. Pareceu-lhe detetar uma ameaça, velada, mas grave. “Anjinhos” remetia abertamente para a outra vida, ou antes, a morte. E uma bicicleta retalhada às fatias pareceu-lhe uma ameaça típica da Máfia.
Sentiu-se empalidecer. O tempo do verbo na frase – “visitaram” – fez-lhe temer por uma intrusão já realizada.

Levantou-se de um salto e vistoriou a casa.
Tudo em ordem. Aparentemente. Espreitou para o pátio. A sua bicicleta estava intacta e Bia, a cachorra, também parecia bem – viva e de boa saúde. Estava atarefada a remexer a terra. Nada parecia indicar que alguém tivesse entrado enquanto dormia. Aliás, Bia teria latido.

Parou a admirar o seu dinamismo. Após um momento, notou alguma coisa de estranho na maneira como se movimentava. Talvez uma certa atitude furtiva. Observou-a melhor.
Foi então que percebeu que a azáfama em que a safada estava empenhada tinha por objetivo enterrar vários pedaços de jornal, uma tesoura e um tubo de cola!


Crédito da imagem: http://pasidupes.blogspot.com/

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O cão late

O cão late, late e late;
late porque o dono chega, porque está feliz,
e ele apanha.

Late para pedir comida, porque sente fome
e ele apanha
late para assustar o ladrão
e ele apanha

Um dia ele aprende,
que não deve mais latir,
não fica feliz,
não pede comida,
não assusta o ladrão.

Um dia
o cão
esquece que
ele foi cão.

E então o dono bate
porque o cão
não late.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Menor Distância



Eram os seios novos, os amigos novos; eram as cores vivas e renovadas, os amarelos, laranjas e vermelhos. Era isso e a dificuldade em imaginar o quanto era miserável, nos mil valores da vida e da palavra; nós olhávamos e viamos nela a expressão do sol e da lua, assim de cada segundo ser uma continuidade de perfeiçőes.
 
Disso ela vivia longe, para lá de si em seu mundo, e mantinha distantes homens e mulheres abaixo; nessa distância nós a julgávamos mal, alguém mal, uma rainha ou princesa em excesso. Em nosso favor, daqueles anos, recordo das insistentes aproximações, a maioria delas em madrugadas cuja lei era o cigarro, e das recusas mesmo para as mais ingênuas conversas; creio eu, a menina não confiava na simplicidade, e os sentimentos, quando existiam, eram uma receita com propósito claro e maldoso, e não o ingrediente.

Na verdade ela não era miserável, isso sabíamos mesmo de nada falar; era alguém como nós, uma pessoa se apagando, mas apenas o compreendemos quando o carro dela girou e só parou ao deixar de ser carro. Era uma madrugada fria e cansada, e ela desfilara bebâda e descalça em um baile, as unhas pintadas como o sorriso. Os homens que brilhavam no escuro demoraram horas para a livrar das ferragens, e quando saiu  era uma nova pessoa, ao menos para nós, que nos sentíamos mais próximos, pois a tragédia é a menor distância.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Aventuras de um Folião Fracassado

Peço perdão pelas apressadas linhas, mas os primeiros acordes das marchinhas carnavalescas já chegam a minha sala e tenho pouco tempo para buscar o meu exílio voluntário. Sou um folião fracassado, confesso. Não consigo me imaginar no meio da Banda de Ipanema, vestido de árabe ou pirata, latinha de cerveja em uma das mãos, cantando “alalaô ôôô ôôô/mas que calor ôôô ôôô”. Tal atitude estaria fora do compasso da personalidade quase monástica deste que escreve. Já estou até providenciando os DVDs que assistirei nos quatro dias (quatro?) de retiro cinematográfico enquanto a folia come solta Brasil afora. Traumas de infância, talvez Freud ou um menos conceituado terapeuta explique.
Tenho uma certa fobia de me fantasiar desde o dia em que minha mãe me vestiu de palhaço para uma apresentação  na festa de encerramento do Jardim de Infância. Tente se imaginar com cinco anos de idade dentro de uma roupa de Clown, guizos por todos os lados, peruca improvisada com uma meia feminina e cabelinhos de lã, cara lambuzada de maquiagem pesada, um calor sufocante de começo de verão, tendo o pobre infante que dançar, dar cambalhotas e, o pior da tragicomédia, não estar com a mínima vontade de participar do evento. Imaginaram? Querem mais uns minutos para montar a cena em suas mentes?  Certamente já decifraram o porquê da minha verdadeira aversão a fantasias.
Voltando a festa momesca, meu pai costumava me levar todo sábado de carnaval a um baile infantil no clube próximo a casa onde morávamos. Com trajes civis, em meio a odaliscas, piratas, fantasmas e baianas mirins, ia eu meio sem graça, peixe fora d’água, tentar me divertir até que em um carnaval, um garoto maior desentendeu-se comigo (impossível lembrar o motivo da contenda) e me deu um empurrão mais forte do que aqueles utilizados pelos empurradores da carros alegóricos. Fui aterrissar debaixo de uma mesa, sob as pernas de sei lá quem, joelho lanhado, cotovelo roxo e a certeza de que não era talhado para os dias gordos de folia. Ao menos carrego o orgulho de contar que já briguei em um baile de carnaval, sempre procurando ocultar que se tratava de uma inocente matinê.
Por conta deste incidente, fiquei longe dos bailes até o momento em que eles começaram a ser transmitidos pelos canais de televisão, época que coincidiu com o advento da minha adolescência e a ebulição de hormônios. Nos anos oitenta pêra quase impossível para o meninos espinhentos verem um corpo nu e o carnaval era a oportunidade de ao menos apreciar as cabrochas semi-despidas e super-rebolativas (como as coisas mudaram!). Passava os quatro dias de folia em claro testemunhado as bacanais orquestradas. Anos mais tarde descobri que os organizadores de certos bailes contratavam meninas e casais mais desinibidos para se exibirem diante das câmeras, reduzindo assim a orgia a um espaço mínimo do salão, enquanto o resto da festa transcorria numa civilidade possível para a ocasião.
Então vieram as Escolas de Samba. Decorava sambas-enredo, pesquisava a fundo os enredos a serem apresentados e varava duas madrugadas assistindo aquela ópera em linha reta passar pela minha TV. Nunca estive na Marquês de Sapucaí, só a venda dos ingressos e suas filas colossais, serpenteantes, me desanimava à aventura. E desfilar então. Nem pensar! O fantasma do palhaço ainda me assombrava.
E as Escolas de Samba cansaram – quem vê uma, vê todas, já dizia o turista japonês que abandona seu lugar na arquibancada do Sambódromo após a passagem da segunda agremiação – e hoje fico longe desta loucura necessária, válvula de escape do brasileiro, que ao menos durante quatro dias pode ser um Rei, uma princesa, um destaque na avenida, dar seu sangue pela escola, manchando em vermelho o couro do surdo, sem deixar o ritmo cair. São heróis. Viva essa gente! Viva o bravo povo Brasileiro! E que todos aqueles que amam o carnaval brinque em paz estes dias gordos e que retornem sãos e salvos aos seus lares para tudo recomeçar na quarta-feira.
Alguém tem uma dica de filme imperdível para este folião fracassado?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cinzas

Quando o último bumbo bumbou e o repenique parou de repenicar,
Batista levantou-se da beira da calçada, lépido e esguio como se nada tivesse acontecido. Caminhou firme pela rua, desviando de bêbados, latas de cerveja e poças de restos de chuva e urina. Tomou o rumo da ladeira sinuosa, quando foi recebido por paralelepípedos mal calçados. Seus pés ardiam. Suas pernas formigavam. O sol já dava sinais de inclemência. Suores brotavam do seu rosto, desciam pela nuca, corriam pelos braços e peitos nus.

Batista estava firme. Passo a passo, ao ritmo de um batuque imaginário,
era acompanhado de uma miscelânea de pensamentos e lembranças dos últimos cinco dias.
A colombina encantadora, a passista de ancas exuberantes, a socialite do camarote,
a turista sueca de cintura dura, a universitária do Leblon de tamborim na mão,
a morena mulher de verdade travestida de travesti no baile alegre,
todas, todas por onde se fartou de amar urgente e sem compromisso
passeavam desnudas seus sorrisos, cheiros e sons de sexo na sua memória recente,
efervescente e atormentada.

Ao chegar no topo do outeiro, tudo se dissipou.
Contemplou o bom e velho portão de madeira, não puxou mais que três vezes
a corrente do pequeno sino, quando um monge apareceu:

- Pode entrar, Irmão Batista. Esta casa é sempre sua.

E Batista não perdeu tempo. Banhou-se na bica do pátio, recebeu vestes humildes,
calçou sandálias. Comeu pão, bebeu água em cuia. Caminhou contrito até a capela,
esperou a missa, onde seguiu todos rituais: cantou, orou em voz alta,
elevou as mãos aos céus, abraçou o próximo e recebeu a comunhão.

Da pequena igreja, fisionomia contrita, desceu uma escadaria soturna.
Refugiou-se no claustro, onde por lá resolveu ficar recluso a tempo perdido.
De joelhos, olhos fechados, cabeça baixa, terço na mão. Meditando, orando, rezando.
Para regenerar a carne e lavar a alma o quanto fosse preciso.
Até que o próximo carnaval chegasse.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Pelo direito de ler livros infanto-juvenis

Sempre fui rata de biblioteca, devorando livros como outros devoram balas ou chocolates (ok, também sempre adorei devorar balas e chocolates, mas isso é só um detalhe). Amo boas histórias, independentemente de elas serem consideradas clássicas ou não, de serem reconhecidas pela crítica ou não. Sou daquelas pessoas que, nas livrarias, gostam de explorar as prateleiras, lendo orelhas e contracapas, para só depois de muito tempo decidir o que vai levar - e normalmente saio com os braços cheios, incluindo-se ali por vezes autores consagrados, por vezes alguns dos quais eu nunca antes ouvira falar.
Isso tudo, no entanto, é só um preâmbulo - ou nariz de cera, como dizemos em linguagem jornalística - para dizer que, no tocante à leitura, não tenho preconceitos. Não me envergonho nem um pouquinho de dizer que, na adolescência, li Paulo Coelho e Sidney Sheldon. Mas também li Machado de Assis e Umberto Eco, entre centenas de outros. Ainda no ensino fundamental, alternava a leitura de séries juvenis, geralmente de mistério, com clássicos da literatura brasileira, e não via nenhum problema com esse arranjo.
Da mesma forma, não vejo nenhum inconveniente, hoje, em alternar leituras ditas mais sérias com aquelas que me dão prazer. E nessas passei a incluir, há algum tempo, também literatura infanto-juvenil. Provavelmente muitos vão achar graça, afinal, já passo dos trinta anos (não se pergunta a idade exata a uma mulher); no entanto, não vejo por que deveria, por isso, abrir mão de uma boa história.
Há dois anos, passei a integrar um grupo local chamado Confraria Reinações Caxias, que se reúne mensalmente para discutir um título infanto-juvenil. Por outros compromissos, tenho ido a poucos encontros, mas o grupo serviu para eu ter a certeza de que não sou a única que aprecia um texto bem escrito, independentemente do público para o qual ele foi escrito.
Aliás, como leitora e também como escritora, e já ouvi o mesmo de outros escritores e leitores, acredito ser um tanto inexata essa classificação de leitura por faixas etárias. Uma boa história é uma boa história, e pode ser apreciada também por outros que não são seu público-alvo original. Não acredita? Pois atire a primeira pedra quem nunca caiu às gargalhadas no cinema, assistindo a filmes como Madagascar e Shrek. Ah, isso é diferente? Por quê?
Pois eu estou aqui para defender o fim do preconceito na leitura, o que inclui a defesa do direito de ler também bons livros infanto-juvenis.
E para quem não sabe por onde começar, deixo a dica de um dos livros que estou lendo no momento, e que é daqueles que você não consegue largar, de tão absorventes: Ladrão de Olhos - As Aventuras de Peter Nimble, de Jonathan Auxier. A trama gira em torno de um órfão cego, de dez anos, que sobrevive como ladrão, até que rouba uma caixa que contém três pares de olhos mágicos. A partir daí, muitas aventuras, com direito a criaturas falantes, corvos aterrorizantes, mistérios e charadas.
Experimente. Às vezes, vale a pena voltar ao mundo mágico das crianças.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

TOQUES

deviam ser sempre leves os toques
asa de borboleta
papel de seda recortado
bolhas de sabão

leves e semi-transparentes
translúcidos em tons pastel
suaves e mansos
espuma na areia

deviam ser ternos e calmos
e longos e quentes
e doces e tantos...

deviam vir musicados os toques
dedilhado em síncopas
vago piano

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A matriarca irlandesa

Um irlandês católico não enterra seus parentes aos domingos. Herança das tradições gaélicas que nenhum dos O’Malley ousaria contrariar, nem mesmo agora que a matriarca tinha exalado o seu último suspiro.
A seanmháthair, ou bisa, como acabaram por chamá-la seus descendentes, tinha morrido, aos 89 anos, num sábado à noite, o que significava um velório prolongado até a segunda-feira. Logo de cara, os preparativos esbarraram num empecilho constrangedor: o corpo avantajado da matriarca não cabia em nenhum caixão. Como não havia tempo para outras opções, Seamus, o filho mais velho, decidiu que a mãe seria encaixada num ataúde de menor porte mesmo.
— Afinal — justificou-se ele, tentando fazer graça para os homens da funerária —, mamãe não pode reclamar de mais nada, não é mesmo?
A Senhora O’Malley tinha nascido em Cork, cidade da Província de Munster, Irlanda do Norte, no ano de 1920. Gostava de contar para todo o mundo que tinha nascido no ano em que um Ato de Governo tinha separado o país em Norte e Sul, na tentativa de afastar católicos e protestantes de um conflito. Orgulhava-se de Cork, uma cidade construída sobre sete colinas, como explicava a torto e a direito. Sentia-se como a cidade, fortemente assentada em pilares morais, os mesmos que lhe permitiram criar a família com mão de ferro, depois da morte prematura do marido, que a deixara viúva aos 34 anos. Viu-se sozinha numa terra estranha, com quatro filhos pequenos, e um negócio de vender tecidos que, mais tarde, deu origem a uma grande tecelagem. Nunca aprendeu direito a língua portuguesa, mas aprendeu a amar o país que lhe deu o sustento e uma vida de regalias.


A filha caçula da Senhora O’Malley, Noreen, e seu marido foram os primeiros a chegar ao velório. Logo depois, foi a vez dos outros dois filhos, Duncan e Peter, dos netos, bisnetos, esposas, noivas e namoradas de netos e bisnetos, e dos amigos, fornecedores, sócios e vizinhos. A quantidade de feições semelhantes às da morta confirmava o quanto a seanmháthair tinha o sangue forte. Por último, chegou Padre Ambrósio, velho conhecido da matriarca e também seu confessor. Apressado, dirigiu-se imediatamente até o grupo que se encontrava ao lado do caixão, para dar início à missa de corpo presente.
No momento em que o religioso postou-se à cabeceira do caixão, um cheiro forte e característico tomou conta do ar:
— Aff! — exclamaram os mais próximos da defunta, abanando o nariz.
— Peço perdão a todos, mas os senhores sabem que é comum aos mortos soltarem gases — disse, em tom constrangido, o primogênito da Senhora O’Malley..
— Safado! — indignou-se uma voz enfurecida — Não foi essa a educação que eu lhe dei!
— Quem disse isso? — agitou-se Seamus.
— Você sabe muito bem quem foi que soltou esse cheiro pestilento por aqui, meu rapaz! — continuou a voz — A cada vez que você ia me fazer companhia, durante o coma, a morte desistia de vir me buscar só por causa do fedor naquele quarto! Eu só não me levanto daqui para lhe aplicar um corretivo porque você me entalou de propósito nesta caixinha apertada!
— Muito bem, quem está fazendo isso? Chega! Não tem graça nenhuma brincar com uma coisa tão sagrada quanto a morte! — continuou o primogênito, procurando entre os rostos próximos um candidato à culpa.
— Desde quando você acha a morte tão sagrada, meu filho? A primeira coisa que você fez quando eu lhe contei que o seu pai foi enterrado com um relógio de ouro e um alfinete de gravata de platina foi mandar desenterrar o coitado para surrupiar as joias!
Estarrecido, Seamus voltou-se para seu irmão Duncan e o apanhou pelo colarinho:
— Você vai aprender a mexer comigo, seu linguarudo, seu inútil!
— Inútil, sim, mas completamente inocente no caso presente — ouviu-se novamente, zombeteira, a voz.
— Ma...ma...mamãe?!
— Em carne e osso. Bom, pelo menos por enquanto...
Gritos, choro, desmaios e correria. O padre começou a benzer-se e a benzer os presentes, sem coragem de olhar para a morta. Afasta todo o mal, Senhor, dessa pobre alma que agora deseja descansar em Teu repouso eterno! Afasta dela o espírito impuro!, repetia sem parar.
— Lindas palavras, meu bom amigo, mas isso não é coisa do Tinhoso não! Não sei explicar como é que pode, mas confie em mim que sou eu mesma!
Incapaz de acreditar nos seus ouvidos, Padre Ambrósio voltou a clamar aos céus, iniciando um exorcismo improvisado:
— Eu comando que saias desse corpo, espírito imundo!
— Xiiiu! Quieto, Padre Ambrósio! Eu venho treinando essa coisa de falar com as pessoas sem abrir a boca há mais de um mês, desde que entrei em coma e padeci naquela cama, cercada por esses incompetentes! Só não sabia é que ia conseguir depois de morta!
Percebendo, por fim, que as palavras não saíam de mais nenhum canto senão da morta, as pessoas deixaram que a curiosidade substituísse o medo. Os conhecidos se aproximaram do caixão, afastando-se das janelas por onde entrava um mormaço pegajoso. Os bisnetos menores da matriarca se amontoaram num canto, apavorados, mas também felizes por verem o aperto dos adultos.
Nesse instante, um senhor de idade acercou-se da defunta e, pondo a mão sobre os seus cabelos espessos, disse, carinhoso:
— Minha querida cunhada. Há, ainda, alguma coisa que a prenda aqui, entre os mortais?
— Há,sim! Uma deles é desmascarar um velho indecente como você, que aproveitou todos os dias do meu coma para me bolinar! E vá tirando a mão da minha cabeça, seu depravado!
Indignada com a revelação, uma das noras da Sra. O’Malley tirou o homem de perto do caixão:
— Saia daqui, seu pervertido!
— Pervertido, sim, mas não é ladrão... — atalhou a defunta.
— O quê?! — retrucou a nora.
— Você já vendeu aquela minha placa de brilhantes que retirou do cofre do meu quarto, ou pretende usá-la, agora que eu morri, e dizer aos outros que eu lhe deixei de herança, minha nora?
Incapaz de fechar a boca de espanto, a acusada ouviu as expressões de indignação de toda a família.
— Diga para a sua mulher devolver as joias da mamãe! — gritou Peter, transtornado, para Seamus.
— E você, filho querido, aproveite e devolva o dinheiro que desviou da conta da tecelagem, está bem? — ironizou a matriarca.
— Eu sabia, eu sabia! — choramingou a caçula Noreen, buscando refúgio nos braços nada entusiasmados do homem ao seu lado — O meu marido avisou que as contas da empresa estavam com problema, mas ninguém quis ouvi-lo! Viram só? Peter, seu ladrão, você vai devolver até o último centavo do dinheiro que roubou da família!
— Bem, devolver, sim, mas descontando o dinheiro que o seu marido gastou em presentes para a amante, Noreen. Senão não seria justo com o seu irmão!
Descontrolada com a notícia, recebida de chofre, Noreen caiu num choro copioso e barulhento. Sua neta adolescente, desolada por vê-la tão abalada, tomou-lhe as dores:
— Que maldade, bisa! Tem certas coisas que é melhor não contar!
— Certas coisas... Sim! Como as agarrações entre você e aquele rapazinho, lá no meu quarto, enquanto diziam para todo o mundo que estavam me fazendo companhia, não é mesmo, bisnetinha?
— Melhor rezarmos agora a missa de corpo presente e enterrarmos logo a Senhora O’Malley! — atalhou, subitamente, Padre Ambrósio — A alma dela precisa de sossego. E a humanidade, também!
— Hahahaha, meu amigo medroso! Hoje é domingo, e os irlandeses não enterram seus mortos aos domingos!
Embaraçados, profundamente incomodados, os membros da família O’Malley não conseguiam mais se encarar ou dizer palavra. Tinham medo que a defunta, ouvindo sua voz, se lembrasse de mais algum malfeito.
As crianças, acostumadas a serem sempre as vítimas dos pais, tios e avós, soltavam risinhos abafados de contentamento.
— Você viu? A bisa disse que o seu avô peida! — provocou uma menina mais crescida.
— Cale a boca! Eu vou contar para a minha mãe que você falou essa palavra, viu? — agitou-se um menino menor.
— Peida, peida, peida...
— Para, para! Pior é a sua avó que é lad... ladr...ladrona! Roubou o broche da bisa!
— Não roubou! Ela sabia que a bisa ia morrer e pegou para ela!
— Xiiiu!!! — ralhou a defunta — O que é que você estão whispering aí, seu moleques? Estão cochichando para ver se eu me esqueço de vocês e não conto para os seus pais quem foi que quebrou a minha cristaleira, no ano passado? Pois fiquem sabendo que, depois que eu morri, eu sei de tudo, de tudo!
Silêncio completo da meninada.
— Cadê a língua? O gato comeu? — continuou a morta — Ah, não, eu já ia me esquecendo! O gato não comeu porque ele morre de medo de chegar perto de você, não é mesmo, Duncan Neto? Desde que você trancou o coitadinho dentro de uma máquina de lavar, há algumas semanas! Peste! Coisa ruim!
— Vovó, pare imediatamente de falar assim com o meu filho! — revoltou-se um rapaz que até então não tinha se manifestado.
— Seu fi...Seu?! ...Hahahahaha!
Os poucos visitantes que ainda restavam apressaram-se a bater em retirada. Porém, antes que alcançassem a porta, a voz da Senhora O’Malley sibilou de novo no ambiente:
— Agora, me deixem conversar um pouco com as visitas, porque senão é falta de educação.

 

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